CRÔNICA
MARINALDO DE SILVA E SILVA
Andar de ônibus é sempre muito interessante, mas fora dos horários de pico, obviamente. Quem puder desfrutar desse sistema coletivo de transporte predisponha-se, oportunize-se. Mas prepare-se, emoções fortes o aguardam, em amplos sentidos. Para o deleite tem as situações engraçadas. Coisas corriqueiras, como descobrir as falcatruas de alguma vizinha, ou receitas passadas in loco, é uma coisa certa. Há aquelas pessoas que fingem dormir, recostam-se, perfeitos simulacros, quando entra um ancião, ou uma grávida. Para a reclamação tem as situações irritantes. A moda agora são os desavisados, ou melhor, mal-educados, que ouvem música sem os fones de ouvido. Dia desses, eram três ritmos diferentes, ninguém teve coragem de falar, a raiva na face de todos, tive que me expressar e quase fui atropelado pelos desinibidos. Juntam-se a eles os vendedores de canetas e doces; Deus me livre de reclamar das organizações sociais, porém colocar um rapaz em cada ônibus repetindo o mesmo discurso, vai dando uma vontade louca de procurar um fone de ouvido, aquele mesmo, que o rapaz que não põe para ouvir sua música poderia me emprestar. Uso três ônibus para chegar à Pirabeiraba, todos os dias, e nas três linhas, todos os horários, é uma repetição de sermões. Para o desespero, tem o desconforto. Quaisquer dos ônibus troncais, saídos dos terminais de integração, deveriam ser bi-articulados. Creio que deva ter três ou quatro, na cidade. É uma verdadeira afronta ao trabalhador, permiti-lo a "espremissão" como resmunga sempre uma senhora que fica colada à porta, porque como ela diz, não quer que os marmanjos fiquem se esfregando, sem vergonha. Não entendo como os fiscais de tráfego, dentro dos terminais, não veem a necessidade de novas linhas em certos horários. É um convívio de cheiros sem tamanho, é um caos essa utilidade pública. Usuário que sou, devido a minha fobia em direção, desde a minha infância, só tenho visto ônibus cada vez mais cheios, e não entendo como as empresas permissionárias vivem com estatísticas que não refletem os que se enlatam todos os dias. Mas acaba, sinceramente, sendo interessante. Já não consigo mais me ver longe dos amarelinhos. É uma delícia os solavancos, as frenagens abruptas, a tensão de tentar sair no próximo ponto, tendo 25 pessoas à sua frente. Mas o que mais me irrita mesmo, é a turma do "ninguém abre a janela". Deu uma chuvinha, caiu uma gota pra dentro, entrou um arzinho mais frio, e pronto: você tenta abrir a janela e já ganha um ‘olhão’ como resposta. Querem moer você! Dias desses, uma senhora atrevida, sentada no banco de trás, ao ver que eu abriria a janela, disse em alto e bom som: "Meu Deus, tem gente que não respira ar que pobre respira." Minha senhora, eu respondi, estou com tuberculose. Neste instante todos abriram a janela. E pela primeira vez, no fundo do ônibus, pude ler "Le Città Invisibili", sossegadamente.
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